A chuva começava a cair, com gotas grossas e pesadas, naquele dia até então ensolarado. Ela olhava para o céu decepcionada, se perguntando o que ainda estava fazendo ali, qual o sentido daquilo tudo. Enquanto a chuva de verão limpava seu corpo, ela deixava lágrimas limparem sua alma, soluçando de vez em quando. Mesmo com toda sua dedicação até aquele ponto, sua vida nunca fizera sentido. E agora, para ela, já havia acabado. Perder sempre foi o seu maior medo. Qualquer coisa, qualquer pessoa. E até agora, apenas isso que estava acontecendo. Ela perdera de novo. As pessoas que mais amava. Sua mãe e seu pai, e seu irmão que estava por vir. Ali era seu limite. Não havia mais felicidade dali a frente.
Ela estava com raiva, já amargara a vida o suficiente, e queria dar um ponto final àquilo tudo. Queria explodir. Expulsar todas as decepções que estavam o corroendo por dentro. Elas não a deixavam respirar mais, elas interromperam sua vida. Não tinha amigos, não tinha família. O pior: não tinha inimigos. O seu maior inimigo era o medo.
Ela não foi ao velório, muito menos à missa de sétimo dia. Mas quando viu o sangue espalhado pela calçada jurou vingança. E era seu único objetivo. Era a única coisa que estava devendo à terra.
Entrou no escritório. Estava cheio. Com o rosto inchado, os olhos que não viam, o coração que não batia. Não mais. Molhada de chuva. Os cabelos pingando, as roupas encharcadas. A secretária encarou a menina. O olhar era turvo, era ganancioso. Era sedento. Engoliu o choro. Uma voz afetada soou no silêncio da sala.
- Eu quero validar minha licença. Pode ser hoje?
- Você marcou?
- Sim, sou Rebecca Ferreira.
- Sim, senhora Rebecca. Pensamos que não viria mais. Sente-se.
Ela achava tudo aquilo desprezível. Ridículo. Meninas segurando as mãos umas das outras, rindo nervosamente. Uma por uma iam ganhando as licenças. Agora alguns problemas seriam resolvidos. Os dela seriam agravados. Aquelas risadas lhe reviravam o estômago. Enfim sua vez chegara. Entrou numa sala com cheiro de eucalipto. Sentou-se numa cadeira acolchoada. Um ambiente totalmente diferente do externo. Um homem careca, com cara de rabugento e cheirando a cigarro de palha a secou dos pés à cabeça. Sorriu de um jeito estranho.
- Então, doutora Rebecca, o que a trás aqui? Não devia estar no velório?
Ela semicerrou os olhos e os punhos.
- Não vim conversar com você, Maurício. Preciso da minha licença.
- Não acho que seja um bom momento... - acendeu um cigarro e deu um longo trago - Você está alterada. Precisa se dar um tempo. Descanse, saia, conheça novas pessoas. Tire esse fardo das suas costas.
- Esse fardo eu já trago comigo desde que tinha 5 anos. Não vou larga-lo agora, só por que está mais pesado.
- Sei que é geniosa, mas acho você uma psicóloga perfeita. Não vou discutir suas decisões. Assine aqui, aqui, e rubrique as páginas.
As mãos tremeram. Mas continuou a assinar os papéis.
- Passar bem.
Tomou-lhe o envelope e se retirou.
Seu plano estava indo bem até aquele momento.
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